SZA fez uma busca simples que virou pesadelo. Digitou o próprio nome numa base de dados especializada em rastrear quais músicas foram usadas para treinar modelos de inteligência artificial e topou com um número que a deixou furiosa: 238 faixas suas foram utilizadas em conjuntos de treinamento de IA musical.
A descoberta foi compartilhada nos Stories do Instagram da cantora, que não economizou palavras. “Acabei de checar e a IA musical treinou com 238 das minhas músicas. Tenho certeza de que algumas são inéditas. Se você é músico e apoia essa porcaria degenerada, você é nojento, e NÃO HÁ NADA QUE VOCÊ POSSA ME DIZER PARA TORNAR ISSO ACEITÁVEL”, escreveu SZA.
Material inédito no radar da IA
O mais preocupante na descoberta de SZA é que entre as 238 faixas rastreadas estariam músicas que nunca foram lançadas oficialmente. Ou seja: material produzido em sigilo, guardado longe dos olhos do público, foi absorvido por sistemas de inteligência artificial sem qualquer autorização ou conhecimento prévio da artista. É uma invasão que vai além do roubo de trabalho já lançado — toca em direitos criativos que nem chegaram ao mercado.
Avisos de longa data
A posição de SZA contra a IA na música não é recente. Na faixa “Ghost in the Machine”, do álbum SOS (2022), ela já tocava no assunto: “Vamos falar sobre IA, o robô tem mais coração do que eu / o robô tem futuro, eu não”. Em março deste ano, em entrevista à i-D Magazine, a cantora detalhou como a crise gerada pela IA afeta desproporcionalmente artistas negros, citando o caso de Olivia Dean: “Por que estou ouvindo covers de IA dela, quando ela acabou de lançar a música? Ela nem consegue receber os streams”.
Cenário em aceleração
A frustração de SZA chega num momento em que a presença da IA na música cresce em ritmo acelerado. Segundo a Deezer, 44% das faixas enviadas à plataforma são geradas por inteligência artificial, salto expressivo em relação aos 28% registrados em setembro passado. Enquanto isso, o mercado segue preparando o terreno: Spotify e Universal Music Group assinaram um acordo de licenciamento que permitirá aos fãs criar covers e remixes com IA a partir de catálogos licenciados.
Para artistas como SZA, movimentos desse tipo parecem ir exatamente na direção oposta à proteção que ela vem pedindo publicamente. A discussão ganhou peso adicional com o surgimento de Xania Monet, uma artista gerada por IA que assinou contrato milionário com gravadora e se tornou a primeira do tipo a entrar nas paradas da Billboard — um case que também recebeu críticas públicas de Kehlani.
A briga continua
O que SZA deixou claro em seu desabafo é que não há meio termo aceitável nessa discussão. Sua mensagem é direta e sem concessões: quem é músico e apoia o uso de IA dessa forma é “nojento”. Não é uma crítica genérica ou moderada — é a voz de alguém que viu seu próprio trabalho, inclusive material nunca divulgado, ser apropriado sem permissão por máquinas.
A artista segue alertando sobre o assunto há anos, mas agora tem números concretos sobre o próprio catálogo. 238 músicas. Algumas nem conhecidas ao público. Esse é o tipo de dado que transforma crítica em evidência.