Keith Richards passou a vida inteira como sinônimo de excesso. O guitarrista dos Rolling Stones construiu sua lenda justamente naquela fórmula clássica: sexo, drogas e rock and roll. Mas aquele Richards que cheirava cocaína, fumava sem parar e abusava de tudo que vinha pela frente ficou para trás. Aos 82 anos, o músico segue vivo e pronto para soltar uma verdade incômoda para quem esperava que ele virasse estátua há tempos.
A transformação radical dos vícios
Para quem acompanha a trajetória de Richards, a mudança começou bem antes de virar pauta de jornal. Segundo reportagem do Igor Miranda, o guitarrista largou a heroína em 1978, a cocaína em 2006 e finalmente o cigarro em 2019. Não é uma transformação que aconteceu da noite para o dia, mas um processo longo de questionamentos e readaptações.
Em conversa recente com o radialista Zane Lowe, Richards largou a bomba que poucos esperariam de alguém com seu histórico. O conselho que ele deu foi direto: “[O segredo para viver mais é uma] vida saudável. Ir para a cama cedo. Não existe nada melhor. Essa é a fórmula: seja um bom garoto.” Sim, Keith Richards dizendo às pessoas para serem bons garotos. A ironia é tão densa quanto a fumaça de seus cigarro antigos.
Como Richards aprendeu a dosar
O que torna a história mais interessante é que Richards não virou um puritano radical. Em entrevista ao The Guardian em junho, ele explicou que aprendeu a escutar o próprio corpo — e isso fez toda a diferença. “Eu costumava ouvir o meu corpo só quando ele estava prestes a gritar por socorro. Eu já estava bem perto do fim da linha antes de pedir ajuda. Mas você naturalmente desacelera se quiser continuar seguindo em frente e aprende a dosar o ritmo”, afirmou.
Richards ainda fuma bastante maconha e bebe com moderação. Ele não se tornou abstêmio, apenas aprendeu o conceito que escapou dele por décadas: equilíbrio. O guitarrista também revelou que a cocaína foi seu ponto de virada mental. Depois de anos fumando, Richards teve uma epifania: “De repente, depois de todos aqueles anos fumando, pensei: ‘como isso é infantil’. Foi isso que mais me fez perder a vontade de fumar”.
A teoria da quantidade precisa na autobiografia
Na sua autobiografia “Vida”, lançada em 2010, Richards já havia discorrido sobre seus vícios com precisão calculada. O músico revelou que sua sobrevivência não se deveu apenas à qualidade das drogas, mas ao cuidado obsessivo com as dosagens. “Não atribuo o fato de estar vivo apenas à alta qualidade das drogas que eu usava. Eu era meticuloso com relação à quantidade. Nunca aumentava a quantidade para ficar mais chapado”, escreveu.
Essa disciplina aparentemente contraditória — ser meticuloso enquanto se entregava a substâncias — pode soar estranha, mas Richards foi claro sobre o que viu ao seu redor: “É assim que a maioria das pessoas se f#de com as drogas. A ganância envolvida nisso nunca me afetou. As pessoas acham que uma vez que chegam em certo nível, aguentam mais. Isso não existe. Especialmente com a cocaína.” Ele observou o que destruía outros e escolheu um caminho diferente, ainda que perigoso.
Richards continua em ação
Enquanto Richards cultiva seus hábitos mais saudáveis — incluindo jardinagem, conforme mencionado na matéria original — os Rolling Stones não descansam. A banda acaba de lançar “Foreign Tongues”, novo álbum com 14 faixas que inclui canções originais e releituras de “Beautiful Delilah” (Chuck Berry) e “You Know I’m No Good” (Amy Winehouse). Com produção de Andrew Watt e participações de Paul McCartney, Steve Winwood e Robert Smith do The Cure, o disco reafirma que os Stones ainda têm gás.
A trajetória de Keith Richards oferece uma lição inesperada: que é possível mudar de rumo, mesmo depois de décadas nos excessos. Nem sempre a história mais interessante é aquela que termina em clichês. Às vezes, o final surpreendente é o cara que deveria estar morto aos 40 anos, ainda aqui aos 82, contando que o segredo é ir para a cama cedo.