O lado crítico de uma lenda
Paul McCartney construiu uma carreira praticamente intocável. Formou com John Lennon uma das duplas de compositores mais bem-sucedidas de todos os tempos, revolucionou o baixo, mantém relevância décadas depois do fim dos Beatles e ainda conquistou admiração quase unânime por suas defesas de causas sociais e apoio a novos artistas. Mas existe um lado menos conhecido do músico veterano que contrasta com sua imagem de figura afetuosa e bem-humorada: Paul McCartney também já foi bastante crítico em relação a outros artistas, e quando decide falar, suas opiniões podem ser surpreendentemente afiadas.
Justamente porque Macca não é conhecido por atacar colegas em busca de manchetes, seus comentários mais duros ganham peso extra. Relembre cinco momentos em que o ex-Beatle disparou sem filtro.
Madonna e a competição dos anos 1990
A relação entre Paul McCartney e Madonna esteve longe da admiração durante boa parte dos anos 1990. No livro Conversations with McCartney, de 2015, o músico admitiu se sentir incomodado com o enorme sucesso da cantora e com a maneira como a mídia a tratava, transformando-a em uma espécie de “deusa” aos olhos do público.
McCartney reconheceu haver um componente de competitividade em sua visão sobre Madonna e outras grandes estrelas, como Michael Jackson. “Se você é competitivo, é isso que você faz. Você olha as paradas, vê o que eles venderam. Bom, vamos tentar vender mais”, explicou o músico, recordando um período em que acompanhava de perto o desempenho comercial de seus contemporâneos.
Oasis: o incômodo que virou admiração relutante
Paul demorou para demonstrar admiração pelo Oasis, apesar da banda considerar os Beatles uma de suas maiores influências. O incômodo começou em 1996, quando Noel Gallagher afirmou que os dois primeiros discos do grupo eram melhores que os trabalhos do quarteto. Um ano depois, McCartney respondeu com ironia: “São cópias e se acham demais. Não significam nada para mim”.
A posição mudaria com o tempo. Em 2016, o ex-Beatle reconheceu os méritos da banda dos irmãos Gallagher, chamando-os de “jovem, inovador e compunha boas músicas”. Mas apontou a declaração de Noel como um grande erro, porque afirmar que uma banda seria maior que os Beatles era praticamente “o beijo da morte”.
The Rolling Stones: a questão da influência
Nem mesmo uma das maiores bandas de Rock da história escapou das críticas de McCartney. Em 2021, o músico afirmou que os Rolling Stones eram essencialmente “uma banda cover de blues” e declarou acreditar que o alcance dos Beatles era um pouco maior que o dos Stones. Anteriormente, Paul havia feito comentários semelhantes, apontando que os Stones tinham raízes mais concentradas no blues, enquanto os Beatles reuniam uma variedade maior de influências.
“Há muitas diferenças, e eu adoro os Stones, mas os Beatles eram melhores”, declarou Macca. Mick Jagger, porém, não parece ter se incomodado com os comentários. O frontman dos Stones ainda convidou Paul para participar dos dois últimos discos: Hackney Diamonds (2023) e Foreign Tongues (2026).
Phil Collins: o incômodo do status Beatle
Phil Collins era fã dos Beatles desde a juventude, mas um encontro breve com Paul McCartney em 2002 abalou essa admiração. Durante uma festa no Palácio de Buckingham, o músico do Genesis pediu um autógrafo para o ex-Beatle. Macca, ao falar com Heather Mills sobre o pedido, chamou Collins de “nosso pequeno Phil”—um comentário que o baterista anos depois caracterizou como condescendente.
Collins relembrou o episódio publicamente, afirmando que McCartney tinha uma maneira de conversar que fazia os outros se sentirem inferiores diante de seu status como Beatle. O comentário chegou aos ouvidos de Macca, que teria procurado o músico para sugerir que os dois deixassem o assunto para trás.
Michael Jackson: a compra que abalou uma amizade
A relação entre Paul McCartney e Michael Jackson começou de maneira promissora. Depois que Jackson gravou “Girlfriend”, dos Wings, os dois trabalharam juntos em “The Girl Is Mine” e “Say Say Say”. Mas em 1985 a amizade foi estremecida por um movimento comercial que deixou Macca furioso.
Jackson comprou por US$47 milhões a ATV, empresa que controlava os direitos de grande parte do catálogo dos Beatles. McCartney havia aconselhado o amigo a investir em editoras musicais e posteriormente tentou recuperar os direitos das próprias composições. Ao descobrir que Jackson havia adquirido o catálogo, ficou indignado. “Acho muito suspeito fazer uma coisa dessas. Ser amigo de alguém e depois comprar o tapete em que essa pessoa está pisando”, disparou Macca.
Aos 82 anos, Paul McCartney segue como uma figura imponente na música, mas essas declarações revelam que sua influência e senso de legado dos Beatles sempre estiveram no centro de suas opiniões sobre colegas artistas.