Infância, dança e a origem na Praça Seca
Alessandra Aires Landin, conhecida pelo nome artístico Lellê, construiu sua trajetória na arte a partir de uma realidade comum a muitos jovens artistas brasileiros: talento e vontade maiores do que as condições financeiras. Nascida na Praça Seca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, Lellê começou a dançar ainda criança. Segundo declarou ao EGO em 2014, ela já se arriscava no hip hop aos seis anos e, aos 11, passou a praticar o passinho—um dos movimentos mais emblemáticos das comunidades cariocas.
Sem recursos para frequentar aulas formais, ela desenvolveu suas habilidades com ajuda da família. O irmão de criação frequentava bailes de dança e, ao voltar para casa, ensinava a Lellê os passos que aprendia. “Meu irmão de criação ia para um baile onde só iam dançarinos, os meninos iam para duelar, eu era muito nova e não podia ir. Então ele ia, aprendia tudo e me passava em casa, foi assim que aprendi o passinho”, contou ao veículo.
Superando o preconceito: a única menina no passinho
O início da carreira de Lellê foi marcado pelo enfrentamento ao preconceito. Em um ambiente dominado por homens, sua presença feminina gerava estranhamento e até resistência. Em entrevista ao Gshow em 2015, ela lembrou que “sofri um pouco, porque esse era um movimento muito masculino”. Lellê foi a primeira menina a se destacar no passinho, o que nem sempre era bem recebido pelos outros competidores: “Nenhum garoto gostava de perder uma batalha de passinho para uma mulher”, afirmou ao Correio Braziliense.
Mesmo diante da rejeição, Lellê persistiu. Continuou treinando, aprimorando seus movimentos e, com o tempo, começou a publicar vídeos de suas apresentações na internet. A estratégia deu certo: “Isso fez com que eu passasse a ser reconhecida nas favelas do Rio. Fiquei famosa no movimento sem sair de casa”, relatou ao Gshow.
Internet como vitrine e o Dream Team do Passinho
O papel das redes sociais foi decisivo para a ascensão de Lellê. Os vídeos que circulavam online ampliaram sua visibilidade e facilitaram o reconhecimento dentro e fora das comunidades. As batalhas de passinho passaram a acontecer também virtualmente, com disputas de dança por vídeo e comentários públicos sobre as performances.
O talento de Lellê foi notado. Em 2013, ela foi selecionada para integrar o Dream Team do Passinho, grupo que reunia dançarinos e cantores ligados ao movimento—e foi a única menina escolhida naquele momento. O grupo ganhou destaque após a participação em um comercial da Coca-Cola, que viralizou e impulsionou a carreira dos integrantes. A oportunidade levou o passinho das comunidades para o grande público e abriu portas para a jovem artista.
Da dança para a televisão
A visibilidade conquistada na dança rendeu convites para a televisão. Em 2014, Lellê passou a integrar o elenco de Malhação, novela da TV Globo, interpretando Guta. A experiência marcou sua estreia como atriz e concretizou um sonho antigo. Segundo contou ao EGO, ela participou de testes e se preparou intensamente para o papel, mostrando a mesma dedicação que já demonstrava na dança.
A passagem por Malhação foi apenas o começo. Lellê seguiu investindo na carreira artística, transitando entre a música, a atuação e a dança. Sua trajetória, construída com resiliência e criatividade, inspira jovens que enfrentam obstáculos semelhantes para conquistar espaço na cultura brasileira.
Reconhecimento e representatividade
Hoje, aos 29 anos, Lellê é referência para muitas meninas que sonham com uma carreira artística, especialmente aquelas que vêm de contextos periféricos. Sua história mostra que, apesar das barreiras impostas pelo preconceito e pela desigualdade, é possível abrir caminhos e transformar paixão em profissão. Como ela mesma relembra, a família teve papel fundamental, mas também foi a persistência que fez a diferença: “Desde novinha eu falava que queria cantar, atuar e dançar”.
A artista segue colhendo frutos de sua dedicação, com espaço consolidado na música e na televisão. Sua trajetória é exemplo de como o talento pode florescer mesmo quando as condições são adversas, e como representatividade importa—não só para quem chega lá, mas para quem está começando e precisa de inspiração.
Fonte: CARAS Brasil