Conhecido por sua legendária resistência aos excessos do rock and roll, Keith Richards encontrou um novo vilão para apontarr como prejudicial à saúde e à criatividade: a combinação letal de celulares e inteligência artificial. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian (via Guitar.com), o guitarrista dos Rolling Stones disparou críticas contundentes contra a tecnologia que domina a vida contemporânea.
A reclamação do ícone do rock
Com mais de seis décadas de carreira ao lado da banda britânica, Richards não poupou palavras ao falar sobre o rumo que a tecnologia tomou. O músico, que completa 82 anos este ano, foi direto: “Quero dizer, pessoalmente, acho que o mundo seria melhor sem esse maldito celular. A inteligência artificial está me matando, sabe? Temo pelo futuro da música? Temo pelo futuro de tudo.”
Para Richards, o problema vai além do incômodo superficial. Ele enxerga a questão como sistêmica: as pessoas se tornaram dependentes de ferramentas tecnológicas sem nem compreender as consequências reais. “Eles não sabem o que diabos isso faz, então agora ficamos todos dependentes disso”, desabafou.
A evolução (ou involução) da tecnologia na música
O veterano da música foi ainda mais crítico ao discutir como os avanços tecnológicos impactaram a indústria fonográfica. Testemunha ocular de décadas de transformações, Richards viu o processo de gravação evoluir de formas que, segundo ele, não trouxeram melhorias reais. “Eu me apego aos métodos antigos, como meu pai diria. Vi discos passarem de serem gravados em fitas de duas pistas coladas na parede, para oito pistas, depois 16, 24, e então o digital, e isso não ajudou em nada a música”, ressaltou.
Para Richards, a verdadeira ferramenta criativa foi bem mais simples: a fita cassete. O guitarrista usa um exemplo icônico para comprovar sua tese. “Se não fosse pela fita cassete, não teria havido Satisfaction, pois eu criava o riff enquanto dormia, apertava o botão de gravar e, no dia seguinte tinha o esboço de Satisfaction.” O clássico dos Rolling Stones de 1965, que se tornou um dos hinos do rock, nasceu de um método praticamente lo-fi pela ótica contemporânea.
Pragmatismo diante da inevitabilidade
Apesar do tom pessimista, Richards reconhece que não há volta. “Mas é algo com que você tem que conviver”, admitiu. O comentário não é uma capitulação, mas sim o realismo de quem viveu o suficiente para entender que o tempo sempre avança, quer queira ou não.
Essas declarações ganham ainda mais peso considerando que Richards está lançando com os Rolling Stones o álbum Foreign Tongues em 10 de julho. Mesmo enquanto prepara novo material, ele segue questionando a infraestrutura digital que domina a indústria moderna.
Um grito de quem viu a música mudar
O desabafo de Keith Richards não é meramente nostálgico. É a perspectiva de um artista que acompanhou a música passar por revoluções tecnológicas e ainda assim percebeu que qualidade criativa não é sinônimo de sofisticação digital. Sua crítica à IA e aos celulares reflete uma inquietação genuína sobre para onde estamos indo — não só na música, mas na sociedade como um todo.
Se há uma lição na fala do ícone é que nem toda inovação agrega. Às vezes, um botão de gravação em uma fita cassete faz mais pela música do que gigabytes de processamento artificial.
Fonte: Rolling Stone Brasil