Quando um fã reconheceu Brandon “Bam” Margera em um estacionamento em Seattle, o skatista parou o carro sem hesitar para posar para uma foto. Aos 46 anos, ele ainda carrega aquele sorriso travesso que o tornou celebridade há mais de duas décadas — agora com coroas de prata nos dentes e um polegar quebrado envolto em tala por uma lesão recente. “Não consigo andar um quarteirão sem tirar 20 fotos”, brinca Margera, ciente de que sua fama continua viva mesmo fora dos holofotes do Jackass.
O Retorno Silencioso à Tela
Margera aparece no novo filme da franquia, Jackass: Best and Last, mas apenas através de arquivo. O que era para ser seu momento de glória — ele ocupava o segundo lugar nos créditos dos três primeiros filmes — virou um fantasma do passado. Sua participação se limita a cenas antigas: a gangorra do touro e a famosa “toca aqui”, onde uma mão gigante com mola o acerta no rosto. Uma cena de 2020 na sala de fuga também está lá, mas nada de novo foi gravado. É um retorno que mais parece um adeus.
Apesar da oportunidade de reencontrar o elenco na estreia, Margera recusou o convite. A ferida ainda dói. “Com certeza vou assistir ao filme, e espero que seja bom, mas quanto a uma reunião, isso não vai acontecer, nem em 10 milhões de anos”, dispara. A mágoa vem de longe: sua demissão conturbada do Jackass Forever, em 2020, marcou o fim de uma era.
O Acordo que Saiu do Trilho
Tudo começou em 2019, antes das filmagens do quarto filme. Margera assinou um acordo de bem-estar com os produtores, comprometendo-se à sobriedade em meio à luta contra o alcoolismo. O custo dessa segunda chance foi alto: testes de bafômetro três vezes ao dia, exames de urina duas vezes por semana e análise regular de folículos capilares. Ele conhecia o jogo.
“Eu já sabia que estavam me armando uma cilada”, confessa Margera. Em agosto daquele ano, foi expulso de um avião por estar supostamente bêbado. Mas havia momentos em que ele parecia genuinamente empenhado na recuperação — chegou até a aparecer no programa do Dr. Phil declarando sobriedade, tomando apenas Adderall para TDAH. No consultório, tentou explicar a realidade de filmar para Jackass: “Você está em um telhado com um carrinho de compras. Você não consegue pousar ali, vai se dar mal de qualquer jeito. Então me dê uns shots de tequila.”
A situação piorou meses depois do início das filmagens de Jackass Forever, em meados de 2020. Margera relata condições degradantes: “Eles me hospedaram em um hotel suspeito, com um cara na porta para garantir que eu não saísse para comprar bebida alcoólica”. Em um momento, foi ordenado que urinasse em um copo no próprio set. Era controle, não cuidado.
A Demissão e Suas Consequências
Em agosto de 2020, tudo desabou. A Paramount o demitiu, acusando-o de usar anfetaminas sem prescrição — acusação que Margera nega, insistindo que tinha receita. O golpe não foi apenas profissional: era financeiro e emocional. Ele esperava receber 5 milhões de dólares. “Dizer para alguém que, depois de tudo isso, achando que vai receber 5 milhões de dólares, você não está no filme e não vai receber 5 milhões de dólares. Quer dizer, eu assisti ao Dateline e vi que as pessoas matam outras por muito menos”, desabafou.
A raiva se transformou em ação legal. Margera processou a Paramount, Johnny Knoxville e o diretor Jeff Tremaine, alegando tratamento desumano e discriminatório. Houve boicotes organizados por fãs, tentativas de cancelar o filme e — segundo relatórios — ameaças contra Tremaine, que obteve uma ordem de restrição contra Margera. Meses depois, Margera receberia diagnóstico de transtorno bipolar.
Em sua resposta ao processo, os advogados da Paramount argumentaram que tentaram ajudá-lo, oferecendo condições para seu retorno. Mas segundo eles, Margera cometeu múltiplas violações: parou de fazer testes obrigatórios, interrompeu comunicação com sua equipe de tratamento, se esquivou de testes toxicológicos e voltou a usar drogas ilícitas. O caso foi encerrado por acordo — os detalhes permanecem privados.
A Reconstrução Longe dos Holofotes
O que poucos esperavam era que Margera realmente reconstruiria sua vida. Longe dos focos do Jackass, ele encontrou sobriedade genuína — algo que ele atribui ao novo amor e a uma série de viagens psicodélicas, além de rituais que envolvem secreções de um sapo amazônico. Parece surreal, mas funcionou.
Hoje, Margera segue em frente com as tatuagens no rosto, quatro piercings no nariz e aquele cavanhaque aparado impecavelmente. Usa óculos de sol de griffe enormes com medalhões dourados. Sua relação com Jackass permanece cortada: “Não tenho nenhum problema com o elenco, são apenas as decisões que Johnny Knoxville e Jeff Tremaine tomaram. Nunca mais quero vê-los na minha vida. Chega.”
Enquanto a franquia Jackass encerra seu ciclo com Best and Last, Bam Margera escreve um capítulo completamente diferente — longe dos palcos, das câmeras e das decisões que uma vez o definiram. A volta ao topo, parece, não é sobre voltar. É sobre seguir em frente.
Fonte: Rolling Stone Brasil