Do interior paulista ao refúgio na floresta carioca
Paulo Betti transformou quatro décadas na Zona Oeste do Rio de Janeiro em muito mais que endereço residencial. Aos 74 anos, o ator, diretor e produtor mantém uma ligação profunda com o Itanhangá, bairro que se tornou parte fundamental de suas memórias e de sua obra autobiográfica. Segundo reportagem do Caras Brasil, a casa de dois andares fica em um residencial cercado por vegetação densa, onde ruínas de uma antiga senzala ocupam espaço especial na memória do artista.
Nascido em Rafard, no interior de São Paulo, filho de uma camponesa e caçula de uma família numerosa de descendentes italianos, Paulo Betti carregava consigo as marcas de uma infância longe do conforto. A escolha do Itanhangá como lar não foi casual. “No residencial onde moro, há umas ruínas de uma antiga senzala no meio da floresta. Esse cenário, com essa construção e presença maciça de vegetação, provocou em mim um sentimento de identificação desde o início, porque se aproxima muito dos ambientes em que nasci e cresci”, explicou o ator.
Biblioteca e cadernos: a casa como arquivo de memórias
O Gshow visitou a residência e documentou espaços que funcionam como museu particular da trajetória de Paulo Betti. A biblioteca concentra registros de sua vida, fotografias e objetos familiares. Entre eles, o cadernão que desde a adolescência reúne anotações sobre acontecimentos cotidianos e impressões pessoais — material que posteriormente inspirou seu espetáculo e livro “Autobiografia Autorizada”, publicado pela Geração Editorial.
A relação entre a casa e a obra autobiográfica ficou ainda mais evidente durante a pandemia, quando Paulo Betti apresentou o monólogo “Autobiografia Autorizada” diretamente do imóvel. As escadas da residência serviram como cenário, reforçando a ligação entre o espaço onde vive e a narrativa sobre suas origens. O próprio artista pretende dedicar parte do segundo volume de sua autobiografia às experiências vividas no Itanhangá.
Itanhangá como rotina e ponto de observação
O bairro não figura apenas como endereço na história de Paulo Betti. Durante mais de quatro décadas, ele transformou a região em sua rotina cotidiana. O ator costuma caminhar pelo Itanhangá, frequentava academia próxima de casa e circula pela Barra da Tijuca de bicicleta e a pé — trajetos que o mantêm conectado às transformações urbanas que presenciou desde 1984.
“A Barra, mais especificamente o Itanhangá e suas montanhas, estará na continuação de minhas memórias, pois vi tudo aqui crescer e a fui palmilhando a pé ou de bicicleta desde 1984”, afirmou. Esse vínculo ajuda a explicar por que a casa no Itanhangá ocupa espaço diferente na trajetória do artista — não é apenas moradia, mas ponto de observação de quatro décadas de transformações na Zona Oeste carioca.
Trajetória que começou na USP
A transformação de Paulo Betti começou quando ingressou na Escola de Arte Dramática da USP, após atuar em teatro amador em Sorocaba. Dali saiu uma carreira que percorreria teatro, cinema e televisão, consolidando-o como figura veterana da dramaturgia brasileira. A infância em senzala ancestral deu lugar ao conforto do Itanhangá, mas as lembranças nunca saíram de seus registros pessoais — cadernos que viraram obra, obra que virou monólogo, monólogo que virou cenário na própria casa onde vive há quatro décadas.