Cauã Reymond não costuma esconder suas vulnerabilidades. Na noite da última quarta-feira (29), o ator de 46 anos abriu o jogo sobre um período sombrio que viveu em meio ao apogeu profissional: uma depressão que o acometeu após o fenômeno de Avenida Brasil, a novela que o catapultou ao estrelato em 2012 e que atualmente repisa pelo Vale a Pena Ver de Novo.
Sucesso que não preencheu
O desabafo aconteceu durante uma conversa sobre saúde mental no Charla Podcast, ao lado de Marcelo Adnet. Cauã foi direto: “Após Avenida Brasil eu acho que vivi uma pequena depressão. Eu sou um cara que acordo cedo, surfo, [e] não me imobilizou. Mas naquele momento eu vivi um momento de muito sucesso, eu vivi um casamento com uma pessoa especial, minha filha tinha nascido, tudo estava certo na minha vida, e eu não me sentia preenchido”.
A contradição que o ator nomeou é clássica: no exterior, a vida parecia perfeita — fama, casamento, paternidade. Por dentro, porém, havia um vazio que nenhuma dessas conquistas conseguia preencher.
A terapia como salída
O que tirou Cauã da depressão não foi mais sucesso, mas sim a disposição de olhar para dentro. A terapia se tornou fundamental no processo. “Foi muito importante sentar em um consultório e falar: Cara, tudo o que eu queria, eu conquistei. Foi essa a sensação. Nunca imaginei, de onde eu saí, chegar até aqui. [Saí dessa] através da terapia, conversando, errando. Eu caio e levanto, quero aprender com meu erro”, revelou.
A origem dessa dificuldade em aceitar as próprias conquistas, na visão do ator, está enraizada em sua história pessoal. Crescer em um ambiente marcado por trauma geracional o fez desenvolver uma relação complicada com o sucesso.
O peso do histórico familiar
Cauã não economizou palavras ao descrever sua trajetória familiar: “Minha mãe era empregada, HIV positivo, adotada. Minha avó foi mãe solteira. Minha tia foi adotada também, esquizofrênica, assassinada no hospício. Uma história extremamente trágica”. Diante disso tudo, alcançar o sucesso profissional e ter uma vida estável parecia surrealista.
“Eu sou um jovem ator com esse sucesso todo, casamento feliz, com tudo bem? Aquilo eu levei um tempo para assentar e ser grato”, complementou. O processo de assimilar que merecia estar naquele lugar levou tempo — e continua sendo uma jornada.
Lição para muitos
O ator aproveitou para refletir sobre um fenômeno que afeta muita gente: “Na maioria das vezes, é no auge que a pessoa está com dificuldade. Não na caminhada. A maturidade e o apoio te ajudam a aceitar suas conquistas. Muita gente não aceita essas conquistas”. É uma observação que ecoa além de sua experiência pessoal — toca numa ferida coletiva que raramente ganha espaço em conversas públicas.
O depoimento de Cauã vai na contramão da narrativa convencional de sucesso no show business, aquela em que tudo deveria ser celebração permanente. Aqui, ele mostra que o pico da carreira pode ser também o pico da angústia — e que está tudo bem pedir ajuda quando isso acontece.