O retorno solo de um ícone invisível
Bernie Taupin passou 60 anos na sombra de Elton John, entregando as letras que moldaram clássicos como Goodbye Yellow Brick Road, Tumbleweed Connection e Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy. Mas o letrista britânico nunca parou de fazer música por conta própria — só que ninguém estava realmente ouvindo. Agora, aos 73 anos, ele finalmente retorna com The Sea Has No Mercy, seu primeiro álbum solo em 39 anos, lançado em 23 de outubro. E desta vez, a história vem acompanhada de holofotes: segundo a Rolling Stone Brasil, o ator Gary Oldman está produzindo um documentário sobre a vida de Taupin.
Uma carreira solo que ninguém viu
Taupin começou sua jornada em disco solo em 1971, pressionado pelo executivo Dick James, que viu oportunidade no sucesso inicial de Elton. “Fui um pouco pressionado a fazê-lo”, confessa o letrista. Aquele primeiro álbum, uma coleção de poesia esotérica narrada, não deixou marcas nas rádios. Vieram depois He Who Rides the Tiger (1980) e Tribe (1987), mas nenhum conseguiu tração comercial significativa.
Depois disso, o silêncio. A banda Farm Dogs, que Taupin formou na década de 1990, encerrou atividades em 1998, e ele se concentrou na família e no trabalho ao lado de Elton. Por quase quatro décadas, sua carreira solo dormiu.
Um álbum “mais satisfatório que qualquer outro”
The Sea Has No Mercy foi gravado em Nashville com o produtor Frank Liddell, acompanhado pelo guitarrista Adam Wright, baixista Glenn Worf e tecladista Michael Rojas. O álbum também reúne colaborações de peso: Brandi Carlile, Lee Ann Womack, Jeremy Jordan Ensemble, a violinista Scarlet Rivera e até a filha de Taupin, Georgey.
O próprio letrista descreve o trabalho com entusiasmo raramente visto em suas declarações anteriores: “Com a idade vem a sabedoria, o que é uma progressão natural”, disse à Rolling Stone. “Este é o álbum mais satisfatório que já fiz. Estou falando da minha própria discografia, não daquilo que fiz com Elton, porque isso é um universo completamente diferente. Eu queria expressar meus próprios sentimentos no meu nível, com a minha própria escrita.”
Os direitos que não saem
Em um momento em que lendas da música vendem seus catálogos por fortunas — estratégia que se tornou tendência na indústria fonográfica — Taupin foi claro: ele e Elton John não pretendem vender seus direitos de publicação musical. É uma postura que contrasta com nomes como Bob Dylan, The Beatles e muitos outros que capitalizaram seus acervos nos últimos anos.
O documentário de Gary Oldman deve explorar essa trajetória única: seis décadas de influência invisível, uma carreira solo que poucos conhecem e a decisão de manter o controle criativo e financeiro sobre a obra de uma vida inteira.
Elton continua
Enquanto Taupin retorna ao estúdio, Elton John também tem um novo disco a caminho, continuando uma parceria que Taupin descreve como “um universo completamente diferente” daquilo que ele busca explorar em seu trabalho solo. Aos 60 anos de colaboração, os dois seguem gerando material — prova de que a relação criativa entre um dos maiores letristas e um dos maiores compositores da história da música ainda tem combustível.
O ressurgimento de Taupin como artista solo não é apenas um retorno pessoal. É um lembrete de que algumas das vozes mais importantes da música moderna permaneceram parcialmente invisíveis, e que às vezes é preciso esperar décadas para que uma história seja finalmente contada.