Glória Menezes, que faleceu em 18 de agosto aos 91 anos de causas naturais, deixou um legado que extrapolava a tela: o acolhimento genuíno dentro de casa. Aos 90 anos, a atriz enfrentou a transição de gênero do neto Theo Fagundes — filho do ator Tarcísio Filho — com uma simplicidade que marcou profundamente a família.
A reação que virou memória
Mocita Fagundes, mãe de Theo, compartilhou em 2025, no Dia da Visibilidade Trans, o momento em que comunicou a notícia à atriz. Segundo ela, Glória respondeu com um simples “E daí?” e um sorriso. A partir daquele instante, a avó nunca mais se referiu ao neto pelo nome anterior, mantendo total coerência ao longo dos anos.
“Nunca vou esquecer a reação da Glória, uma mulher de 90 anos, quando soube da transição do Theo. Ela falou: ‘E daí?’ e sorriu. Nunca mais ela chamou o Theo pelo ‘nome morto’. Nunca se enganou. Nunca errou”, escreveu Mocita, emocionada nas redes sociais.
Acolhimento como princípio familiar
A postura de Glória não foi isolada. Tarcísio Filho, seu filho e pai de Theo, também recebeu o neto com amor e naturalidade. “[Tarcísio Filho reagiu] exatamente como a Glória. Com muito amor, acolhimento e sem dar importância ao que não importava. O Theo sempre foi muito bem-vindo”, explicou Mocita ao destacar que a empatia era um princípio fundamental na família da chamada “1ª dama da dramaturgia brasileira”.
A atriz, nome artístico de Nilcedes Soares de Magalhães, teve uma carreira de mais de 50 anos marcada por produções memoráveis no cinema, teatro e televisão. Seu legado profissional incluiu papéis icônicos ao lado do marido Tarcísio Meira, com quem permaneceu casada por 59 anos até a morte dele em agosto de 2021.
Uma vida de pioneirismo
Em 1960, o cineasta Anselmo Duarte convidou Glória para integrar o elenco do filme O Pagador de Promessas, lançado em 1962, único vencedor brasileiro da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Um ano depois, ela protagonizou a primeira novela diária da televisão brasileira, 2-5499 Ocupado, ao lado de Tarcísio Meira — momento em que o casal começou a se conhecer nos bastidores.
O trabalho conjunto se estenderia por décadas. Entre telenovelas como Sangue e Areia (1967), Rosa Rebelde (1969), Irmãos Coragem (1970) e Torre de Babel (1998), o casal se tornou referência na dramaturgia nacional. Tarcísio Filho, único filho do casal, nasceu em 1964 e também seguiu a carreira artística.
Um exemplo que permanece
A morte de Glória, exatamente cinco anos e seis dias após a de Tarcísio Meira, encerrou um ciclo de mais de sete décadas de contribuição às artes cênicas brasileiras. Mas sua história com o neto Theo ressoa como um exemplo de como gerações, mesmo aquelas que viveram em épocas diferentes, podem compreender e abraçar mudanças fundamentais na vida de quem amam — com simplicidade, sem dramaticidade, apenas com o carinho que define uma família de verdade.