Zé Ramalho completou 77 anos neste sábado, 3 de outubro, como um dos maiores nomes da música brasileira. Mas o caminho até o sucesso passou longe do consultório: o artista abandonou o curso de Medicina na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) no segundo ano para seguir a carreira de compositor e cantor, segundo informações da Caras Brasil.
A decisão que contrariou a família
Nascido em 3 de outubro de 1949, no sertão paraibano, José Ramalho Neto cresceu em uma família que tinha planos diferentes para seu futuro. A escolha de abandonar Medicina não foi fácil: representava um choque social e familiar devastador. “Foi um choque social muito grande familiar. Eles ficaram muito tristes. Era uma esperança muito grande que eles tinham”, lembrou em entrevista ao programa Conversa com Bial, exibido pela TV Globo em outubro de 2019.
Na mesma conversa, Zé Ramalho explicou que já estava agoniado nas salas de aula. “Eu estava no segundo ano agoniado nas salas de aula. Eu não ia ser um bom médico, eu não queria fazer aquilo”, declarou. Na época, o artista já tinha composições importantes prontas, entre elas Avôhai, Chão de Giz e Vila do Sossego — músicas que marcariam sua trajetória. A decisão foi comunicada aos familiares de forma clara: “Olha, não vou mais estudar. Não vou mais para a faculdade. Eu quero ir para o Rio de Janeiro ou São Paulo tentar a carreira de compositor e cantor”.
Rio de Janeiro e a luta pela sobrevivência
Em 1976, Zé Ramalho se mudou para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades para gravar suas composições. O período foi marcado por dificuldades financeiras severas. Sem contatos na indústria fonográfica e longe de casa, enfrentou problemas para conseguir moradia e alimentação enquanto buscava uma gravadora interessada em seu trabalho.
“Eu não tinha ninguém. Eu vim para cá, achando que o que eu sabia da vida dava para sobreviver, então foi um teste de sobrevivência diária”, contou na entrevista ao Conversa com Bial. Era, de fato, uma aposta arriscada de um jovem que deixara para trás a segurança de uma profissão tradicional.
Do risco ao reconhecimento
A persistência começou a render frutos em 1977, quando lançou seu primeiro álbum solo, também conhecido como Avôhai, em referência à canção que se tornaria um dos principais marcos de sua carreira. O disco trouxe também Chão de Giz e Vila do Sossego. Dois anos depois, em 1979, o álbum A Peleja do Diabo com o Dono do Céu ampliou sua popularidade e apresentou Admirável Gado Novo, uma de suas composições mais conhecidas até hoje.
Avôhai, uma de suas criações mais célebres, ganhou nome especial: o compositor combinou as palavras “avô” e “pai” para homenagear a figura do avô paterno, que o criou após a morte do pai quando tinha apenas três anos. Segundo o próprio Zé Ramalho, a música surgiu após uma experiência marcante durante o período universitário, relacionada a um trabalho sobre fungos. “Foi a única vez que isso aconteceu comigo. É quase uma coisa meio sobrenatural”, declarou ao recordar o processo criativo.
A história que inspira gerações
A trajetória de Zé Ramalho exemplifica como uma decisão difícil, acompanhada de incertezas e desafios financeiros genuínos, contribuiu para a construção de uma das carreiras mais marcantes da música brasileira. Aquele jovem que contrariou a família e enfrentou a pobreza nas ruas do Rio de Janeiro consolidou seu legado como um dos nomes incontornáveis da música nacional, provando que às vezes o risco vale a pena.
A história também revela como a família, apesar do choque inicial, presenciou a transformação de um sonho em realidade. Hoje, Zé Ramalho é celebrado não apenas como músico, mas como artista que teve coragem de escolher seu próprio caminho — mesmo quando tudo apontava para o contrário.