Uma vida inteira conectando o blues ao mundo
Buddy Guy completou 90 anos no dia 30 de julho e segue em ritmo acelerado. Nascido em Lettsworth, Louisiana, em 1936, o guitarrista se tornou um dos últimos grandes representantes da geração que construiu o blues moderno. Sua carreira de mais de sete décadas conecta as raízes rurais do gênero à evolução do rock, soul e música contemporânea — tudo isso enquanto ainda desfila pelo red carpet de Hollywood e toca em palcos ao redor do mundo.
A turnê de 40 datas que marca sua entrada na nona década é apenas o reflexo de uma trajetória que nunca parou. Em 2026, Buddy conquistou seu nono Grammy com o álbum Ain’t Done with the Blues, título que resume bem sua atitude. Naquele mesmo ano, participou do filme Pecadores, que acumulou mais de 200 prêmios, incluindo quatro Oscars, levando Buddy para o palco da cerimônia — colocando o blues em destaque numa das maiores noites do cinema.
De motorista de caminhão a ícone da guitarra
Poucas carreiras têm raízes tão profundas e humildes. Buddy cresceu trabalhando nas plantações de algodão da Louisiana, sem água corrente nem eletricidade até os 17 anos. Sua primeira guitarra foi improviso: um pedaço de madeira com fios da tela de mosquiteiro. A primeira música que aprendeu foi Boogie Chillen, de John Lee Hooker.
Quando se mudou para Chicago em 1957, a cidade era a capital mundial do blues elétrico. Um ano depois, assinou com a Chess Records — a lendária gravadora que criou o Chicago Blues. Naquele hall estavam Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Willie Dixon e Little Walter. Por uma década, Buddy foi motorista de caminhão durante o dia e músico à noite. Sua influência, porém, cruzou o Atlântico antes de ser plenamente reconhecida nos EUA: foi através de britânicos como Eric Clapton, Jeff Beck, Jimmy Page e os Rolling Stones que sua música ganhou visibilidade internacional durante os anos 1960 e 1970.
O revolucionário que mudou a forma de tocar
Buddy Guy não apenas tocou guitarra — revolucionou a forma de tocá-la. Muito antes de técnicas como feedback, bends extremos, sustain prolongado e improvisações incendiárias se tornarem corriqueiras no rock, ele já as utilizava nos palcos de Chicago. Sua influência é reconhecida por alguns dos maiores nomes da história da guitarra: desde Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan até John Mayer, Gary Clark Jr., Carlos Santana e Jonny Lang.
O reconhecimento tardio nos EUA chegou em 1991, com o álbum Damn Right, I’ve Got the Blues, que venceu o Grammy e marcou seu renascimento artístico. Desde então, colecionou prêmios: 9 Grammys no total, Grammy Lifetime Achievement Award (2015), National Medal of Arts (2003), Kennedy Center Honors (2012), ingressso no Rock and Roll Hall of Fame (2005) e dezenas de Blues Music Awards.
De Legends a embaixador do blues
Em 1989, Buddy inaugurou o Buddy Guy’s Legends em Chicago — muito mais que um clube, um templo. O espaço se tornou ponto de encontro para músicos consagrados e novos talentos, mantendo viva a tradição do blues e recebendo artistas de todo o mundo. A importância cultural de Buddy transcende o palco: em 2018, um trecho da Louisiana Highway 418 foi rebatizado como Buddy Guy Way. Sua cidade natal, Lettsworth, possui um marco histórico que integra roteiros turísticos oficiais dedicados ao blues do estado.
Em Chicago, o Estado de Illinois aprovou resoluções legislativas reconhecendo sua contribuição excepcional à cultura e à história da cidade. Buddy é amplamente descrito como um símbolo da identidade cultural de Chicago, um embaixador do blues que nunca parou de trabalhar.
O blues segue vivo e bem
Com 90 anos e uma turnê de 40 datas marcada, Buddy Guy continua em plena atividade — e surpreendendo. Como ele mesmo diz: “as far as I can tell, the blues is alive and well”. Aos 90, a gente continua rockando quando tem a leveza e a paixão de uma lenda viva que nunca se rendeu ao tempo.