Quando Rosalía levou a turnê Lux para o Madison Square Garden em duas noites de junho, não foi um simples show de música. Foi um acontecimento. A arena de 19 mil pessoas recebeu fãs vestidos de branco celestial, halos e tiaras — gente vindo para viver uma experiência religiosa. E ela entregou exatamente isso, mas com tempero pop, balé profissional e uma dose generosa de deboche que só Rosalía consegue sustentar sem cair na pretensão.
Quando a Heritage Orchestra pisa no palco
O segundo em que tudo começou foi revelador. A Heritage Orchestra — banda britânica que virou parceira fixa nesta turnê — entrou no fosso enquanto “Angel”, de Jimi Hendrix, ecoava pelos alto-falantes. Enquanto isso, funcionários de preto organizavam uma gigantesca caixa branca no palco. Quando abaixaram cada lado, lá estava Rosalía de tutu branco e sapatilhas de ponta, como uma bailarina de caixinha de joias. A arena inteira rugia.
Esses primeiros segundos marcaram o tom para duas horas de coreografia e encenação fruto da colaboração com Dimitris Papaioannou, o mesmo que dirigiu a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2004. Não era amadorismo. Era arquitetura teatral pensada ao detalhe.
Ópera barroca encontra eletrônico explodindo
O show está dividido em quatro partes, e os dois primeiros atos são impiedosos na quantidade de momentos avassaladores entregues um atrás do outro. Rosalía abriu com “Sexo, Violencia y Tlantas”, a faixa de abertura do álbum Lux, e de lá em diante foi subida constante.
Há uma beleza quase frágil em “Reliquia”, mas também há misticismo profundo e dissolução do ego em “Divinize”. O drama operístico de “Mio Cristo Piange Diamanti” é um atestado puro do poder vocal formado em conservatório — aquele treino que faz a diferença entre cantar e ser um intérprete excepcional. Depois vem “Berghain”, que mistura cantos de coro com explosões eletrônicas e coreografia frenética. É teatro, é música clássica, é pop descontrolado tudo ao mesmo tempo.
Isso representa um salto significativo comparado às turnês anteriores. El Mal Querer tinha modernidade cinética; Motomami era cinema cru e minimalista. Aqui, a coreografia recebeu críticas de bailarinas profissionais nas redes sociais, mortificadas com a forma e assustadas com os tornozelos dela. Mas esse é o ponto: Rosalía não está fingindo ser bailarina. Está construindo um mundo opulento, honrando formas de arte altamente disciplinadas enquanto mostra o compromisso e rigor que a trouxeram até aqui.
Pop disfarçado de pretensão, mas com piscada de Betty Boop
Aqui mora a genialidade dessa turnê: Lux, vista de longe, pode parecer pedante. Dúzias de idiomas, referências a santos e textos divinos, uma produção operística ao extremo. Mas ao vivo, Rosalía suaviza as arestas com respingos de pop, sensualidade e travessura. É um equilíbrio que poucos artistas conseguem sustentar — e ela parecia genuinamente eufórica por estar tocando em Nova York.
“Eu lembro do primeiro show que fiz aqui: tinha, tipo… sem exagero, 20 pessoas”, ela confessou. “E hoje à noite eu tô tocando no Madison Square Garden!”
Para quem segue os momentos mais animados da discografia dela, houve versões retrabalhadas de hits como “Saoko” e “Despecha”. A rapidez com que ela alternava entre arrancar lágrimas e soltar uma piscadela de Betty Boop foi algo de impressionante.
Confissões e cabaré — Maggie Rogers entregou tudo
Como tradição da turnê, Rosalía leva uma celebridade amiga ao palco para fazer confissões provocantes. Dessa vez, ela trouxe Maggie Rogers. E o que Rogers contou foi realmente insano: uma história sobre um jornalista do New York Times que a levou para a sala de reuniões dele para se beijarem à 1h da manhã — só para ela descobrir depois que ele tinha namorada.
A confissão de Rogers, segundo o texto original, é de longe a mais suculenta da turnê até agora. E isso preparou o palco para “La Perla”, uma repreensão mordaz a um chauvinista feita ao som de uma valsa, com coreografia atrevida de cabaré.
Só ela consegue fazer isso
O que Rosalía faz na turnê Lux transcende música pop. É construção de mundo em tempo real, é respeito pela história da música, é brincadeira desavergonhada, é técnica vocal estrondosa, é dança perigosa. É uma artista em seu pico criativo, tendo permissão de fazer exatamente o que quer — e tendo a visão para saber que pode misturar ópera com balé, santos com cabaré, beleza com travessura.
Não muitos artistas conseguem isso. Na verdade, basicamente só Rosalía.