Jão voltou aos holofotes com Memórias Póstumas, um dos projetos mais pessoais de sua carreira. Em conversa exclusiva ao Hugo Gloss, o artista abriu o coração sobre o período longe dos holofotes, revelou como as perdas recentes moldaram seu novo trabalho e detalhou os desafios de lidar com luto, fama e saúde mental.
O hiato e a vida que não era planejada
Há pouco mais de um ano, Jão publicou uma carta aberta anunciando uma pausa por tempo indeterminado após um ciclo intenso de quatro álbuns e uma grande turnê. Ele havia planejado viajar — Itália, Tanzânia, Japão — e aproveitar a vida ao lado da família. Mas a realidade foi bem diferente.
Em junho de 2025, o cantor recebeu a notícia da morte do seu pai. A partir desse momento, o afastamento ganhou um significado muito mais profundo. “Fiquei, mas de uma maneira diferente”, confessou ele na entrevista. Durante esse período, mesmo enfrentando o luto, Jão conseguiu realizar alguns desejos, como assistir aos shows de Lady Gaga e Lorde. Ainda assim, manteve distância das redes sociais — algo que nunca foi natural para ele.
As palavras como ferramenta de ressignificação
Embora Memórias Póstumas tenha sido profundamente influenciado pelas perdas recentes, o conceito do disco surgiu antes da morte do pai. Jão revelou que a ideia nasceu em 2024, inspirada na morte de sua avó, e ganhou novos significados após perder o pai.
O álbum conversa com a obra de Machado de Assis e funciona como uma ferramenta de ressignificação pessoal. “É um álbum muito sobre as palavras, sobre como ressignificar as coisas quando nada tem significado. A literatura e a arte me ajudaram a reescrever o que estava acontecendo na minha vida”, explicou o artista.
Cada uma das 14 faixas apresenta perspectivas de pessoas importantes em sua trajetória. “Eu canto na perspectiva da minha avó, do meu pai, do meu namorado. Quando eu estava muito sem perspectiva, escrevi sobre novas perspectivas”, afirmou. Apesar de abordar morte e finitude, Jão enfatiza que o projeto também fala sobre futuro: “É um álbum que fala muito sobre perda e finitude, mas também fala sobre planos, futuro e família”.
A insegurança e a coragem de expor histórias pessoais
O artista admitiu estar dividido entre sentimentos contraditórios. “Estou inseguro, mas muito confiante. Estou indo no meu tempo. Acho que estou muito mais nervoso do que eu sempre estive para lançar um disco, mas, ao mesmo tempo, muito apaixonado pelo disco que a gente fez”, disse ele.
Jão se questionou bastante se gostaria de compartilhar histórias tão pessoais com o público. Durante o processo criativo, chegou a achar a ideia de investir numa carreira “muito supérflua” naquele momento. A virada aconteceu em uma corrida de madrugada, quando escutava o álbum de Lorde: “Comecei a chorar muito. Fiquei muito aliviado de ver meu corpo respondendo àquilo e lembrar o que a música faz comigo”.
Ainda assim, algumas faixas permanecem difíceis de ouvir. “Amor e Literatura são músicas que eu não consigo ainda muito ouvir”, confessou.
A colaboração criativa com Pedro Tófani
Das 14 faixas de Memórias Póstumas, 13 foram compostas por Jão ao lado de seu companheiro, Pedro Tófani. O processo criativo lado a lado não foi simples. “A gente começou a escrever os dois na mesma sala. Foi bem difícil”, revelou o cantor.
Houve discussões no caminho, mas os dois desenvolveram uma linguagem própria. “A gente briga bastante, mas se conversa muito pelas músicas. Foi uma linguagem que desenvolvemos um para o outro”, afirmou Jão. Ele confessou que não conseguiria fazer esse disco com outra pessoa: “Ele é a única pessoa que eu deixaria escrever junto comigo, porque é um álbum sobre as palavras, sobre a minha vida e sobre o nosso cotidiano”.
Futuro e mudanças de perspectiva
Quando questionado sobre a possibilidade de ter filhos, Jão foi direto: “Cada vez menos”. Ele explicou que essa percepção mudou bastante desde a adolescência, quando imaginava ser pai muito cedo. Agora suas prioridades e desejos para o futuro tomaram outros caminhos.
O cantor está preparando um megashow em São Paulo para setembro, onde deve apresentar o novo trabalho ao vivo para seus fãs. Após meses de afastamento e reflexão profunda, Jão retorna com um projeto que mistura dor, literatura, resignificação e esperança — marcas de um artista que encontrou nas palavras e na arte a força para atravessar seus momentos mais difíceis.