Jão está de volta com Memórias Póstumas, disco lançado no último domingo (26) que marca um ponto de virada em sua trajetória. Após o sucesso explosivo de SUPER (2023), que o levou a arenas e consolidou seu nome no pop brasileiro, o cantor escolheu um caminho completamente oposto: a intimidade, a vulnerabilidade e a reflexão profunda sobre o luto.
O álbum nasceu de uma ruptura pessoal real. Em junho do ano passado, o pai de Jão, Carlos Alberto Balbino, faleceu aos 61 anos de idade. A notícia chegou de forma abrupta, sem avisos, sem rituais prévios — exatamente como descreve o artista em entrevista ao Estadão recentemente:
“Foi num dia idiota. Uma terça-feira, meio-dia, de sol. Nada incomum. Nenhum sinal, nenhum aviso. Nem o café estava amargo. Estava tudo certo. Aconteceu. Minha irmã me ligou e a ruptura aconteceu assim. O rasgo aconteceu. E estou lidando com ele até agora.”
O Luto Como Rotina de Sobrevivência
O que chama atenção no relato de Jão é a clareza com que ele nomeou sua estratégia de enfrentamento. Depois de passar por um hiato de dois meses na carreira, o cantor precisou estabelecer uma forma viável de existir no dia seguinte, e no próximo, e no próximo. Não foi sobre resolver o luto, mas sobre viver com ele.
“Eu estou lidando com o dia. E esse foi o meu trato comigo mesmo. Quando eu comecei a pensar no que ia ter adiante, no quando minha casa ficasse pronta, no quando eu tivesse um filho, no quando eu estivesse fazendo o show de 30 anos da minha carreira, isso tudo começou a me destruir. Porque nenhuma dessas coisas teria ele. Então, eu comecei a lidar com o dia. E acho que esse álbum foi muito importante para mim nesse sentido. Eu tinha o meu álbum para fazer. Então eu fazia o álbum, criava uma rotina em que eu existia ali,” confessa.
Esse depoimento revela uma verdade incômoda sobre o luto: não é sobre superação, mas sobre reconfiguração. O disco virou ferramenta de sobrevivência, uma estrutura onde Jão podia existir enquanto processava a ausência.
O Isolamento Múltiplo do Luto Familiar
Um dos trechos mais potentes da entrevista diz respeito ao que Jão chama de “isolador” — essa experiência paradoxal de estar perdido em família, cercado por pessoas que amam a mesma pessoa que você perdeu, mas cuja perda é radicalmente diferente da sua.
“Mas é muito isolante. É muito isolador, na verdade, né? Porque nós perdemos pessoas diferentes, apesar de ser a mesma pessoa. Então, eu não consigo ajudar minha mãe, porque ela perdeu o marido dela e o melhor amigo dela. E ela não consegue me ajudar, porque eu perdi meu pai. E eu e minha irmã temos a maior confluência da pessoa que perdemos, mas, ao mesmo tempo, quem ele era para ela também não era igual ao que ele era para mim. Então, é bem confuso.”
Essa observação vai além do senso comum sobre luto compartilhado. Jão não fala de uma dor genérica, mas da solidão específica de perder alguém dentro de um círculo onde ninguém mais consegue entender exatamente o que você perdeu. A mãe perdeu um companheiro; Jão perdeu a figura paternal e tudo que ela representava em suas projeções de futuro. São abstrações diferentes da mesma morte.
Mudança de Rumo Artístico
Memórias Póstumas não é uma continuação de SUPER. Enquanto aquele álbum era potência, refrão, batida forte — arma para preencher estádios — este novo trabalho desacelera, respira fundo e inverte prioridades. A faixa de abertura, “Catedral”, já sinaliza essa mudança: reflexão sobre morte e ausência desde o primeiro segundo.
É curioso que Jão tenha transformado o que poderia ter sido um luto privado, silencioso, em um objeto cultural. Não para lucrar com a dor — esse é sempre o risco — mas porque precisava. Porque o disco era a única rotina viável. Porque criar salvou sua vida quando viver parecia impossível.