Roberto Medina não deixa por menos quando o assunto é burocracia brasileira. Em entrevista recente ao Toca UOL, o criador do Rock in Rio desabafou sobre um problema que volta e meia aparece na agenda de preparação do festival: a fiscalização governamental desproporcionalmente pesada que marca a realidade dos eventos de grande porte no Brasil.
O peso de 50 órgãos fiscalizadores
A comparação é impiedosa. Enquanto no Brasil quase 50 órgãos fiscalizam o evento, nos Estados Unidos esse número cai para 5. Em Portugal, são apenas 6. Medina não usa palavras sofisticadas para descrever o cenário: “A burocracia no Brasil é feita para desencorajar quem quer fazer alguma coisa.”
A frustração do empresário vai além da simples reclamação. Ele aponta uma diferença fundamental de mentalidade entre os países. “Lá nos Estados Unidos os caras perguntam o que você quer. Aqui eles ficam procurando o que você não tem”, resume Medina. A frase resume um problema estrutural: enquanto órgãos reguladores americanos tendem a facilitar iniciativas, a máquina administrativa brasileira funciona como um obstáculo permanente.
Histórico de batalhas legais e espaciais
A luta de Medina contra a burocracia não é recente. O histórico do Rock in Rio está repleto de episódios que mostram como questões administrativas moldaram a história do festival. A primeira edição, em 1985, deixou marcas profundas. Na época, Medina enfrentou perseguição do governador Leonel Brizola, que o acusava de ter intenções políticas. O resultado foi devastador: um prejuízo de US$ 8 milhões e a obrigação de demolir a Cidade do Rock após o evento.
Desde então, o festival mudou de local quatro vezes no Rio de Janeiro, sempre lidando com disputas relacionadas a alvarás e licenças municipais. Foi justamente por causa desses impasses que o Rock in Rio saiu do Brasil em 2000, ficando uma década em Lisboa. O retorno à cidade carioca em 2011 aconteceu porque a Prefeitura ofereceu construir um espaço dedicado no Parque Olímpico, na Zona Oeste. Uma solução aparentemente simples, mas que levou anos de negociação.
Problemas trabalhistas que ecoam
Se a burocracia administrativa é um peso, questões trabalhistas se tornaram um escândalo em 2024. O festival enfrentou uma situação constrangedora quando uma força tarefa do Ministério do Trabalho resgatou 14 trabalhadores em condições análogas à escravidão durante a edição anterior. Os funcionários haviam sido contratados por uma empresa terceirizada responsável por atividades operacionais.
A Justiça do Trabalho do Rio de Janeiro não deixou barato. Em março de 2026, a corte determinou uma série de medidas obrigatórias à Rock World, empresa responsável pelo festival. Entre elas, registro formal de trabalhadores terceirizados antes do credenciamento de prestadoras, controle de jornada, descanso mínimo entre turnos e fornecimento de equipamentos de proteção. O descumprimento resulta em multa diária de R$ 50 mil por obrigação violada.
A Rock World respondeu à decisão com surpresa e indignação, argumentando que sempre cumpriu essas práticas e que a culpa recai sobre a empresa terceirizada. Independentemente da disputa sobre responsabilidades, o episódio exemplifica como problemas estruturais – desde burocracia até gestão de terceirizados – continuam assombrando o festival.
O sistema como obstáculo permanente
O que Medina traz à tona não é um problema exclusivo do Rock in Rio, mas sim uma característica do ambiente de negócios brasileiro. A burocracia excessiva afeta desde startups a grandes eventos, criando um ambiente onde a criatividade e a inovação precisam navegar por um labirinto administrativo que congêneres internacionais não enfrentam.
Para o Rock in Rio 2026, que acontece em setembro, essas questões permanecem latentes. A edição será um teste para saber se as medidas judiciais implementadas serão realmente efetivas e se a máquina administrativa brasileira continuará funcionando como uma máquina de atrasos.