A Molho Negro finalizou sua série de materiais audiovisuais com o lançamento do clipe de “VIDAMORTECONTEÚDO”, faixa-título do álbum mais recente da banda pelo selo Deck. O vídeo, dirigido por Cassiano Geraldo da produtora Los Gordos, encerra uma narrativa visual que acompanhou toda a campanha do disco, reforçando um universo estético aguçado e crítico.
Da denúncia pessoal à crítica social
O que começaria como um simples relato de abuso ganha dimensões bem maiores em “VIDAMORTECONTEÚDO”. Segundo João Lemos, vocalista da banda de Belém radicada em São Paulo, a música estabelece uma metáfora que conecta a experiência traumática a temas como vício e presença constante das redes sociais. “A música começa através do relato de um abuso, mas a metáfora faz uma curva e correlaciona esse abuso com o vício e a onipresença das redes em nosso cotidiano, que assim como muitos vilões, em um primeiro momento se apresentam como salvadores”, explica Lemos.
Essa leitura crítica não é nova para a Molho Negro. O tom sarcástico e ácido que marca o material recente da banda segue presente no clipe, reforçando uma postura que vai além do entretenimento para questionar estruturas que naturalizam a exposição permanente e o consumo compulsivo de conteúdo.
Estúdio de tatuagem e telas fragmentadas
O diretor Cassiano Geraldo transformou a faixa em um exercício visual que brinca com a própria ideia de “conteúdo”. A narrativa se divide entre dois espaços: um estúdio de tatuagem onde o baterista Tonhão é tatuado, e um universo lúdico e fragmentado que habita as telas de celulares.
“A proposta narrativa busca brincar com a própria ideia de ‘conteúdo’ sob a perspectiva do fã e das mídias digitais”, explica Cassiano em nota à imprensa. “Escolhemos cenários e conceitos que se amarram como uma colcha de retalhos, espelhando a forma dinâmica e caótica como a maioria dos conteúdos digitais nasce e consome nossa atenção hoje em dia.”
Essa escolha estética não é aleatória. A fragmentação visual reflete a experiência real de quem vive nas redes sociais: múltiplas abas abertas, feeds infinitos, atenção dividida e pulverizada. O caos visual do clipe torna-se, portanto, uma tradução honesta do caos mental que essas plataformas provocam.
Encerramento de um ciclo audiovisual
Nos últimos meses, a Molho Negro construiu uma narrativa extensa em torno do álbum, combinando clipes, registros de estrada, conteúdos ao vivo e gravações de shows. “VIDAMORTECONTEÚDO” funciona como ponto final dessa jornada audiovisual, mas não necessariamente como conclusão temática—a discussão sobre redes sociais, vício e exposição permanente segue relevante e sem respostas fáceis.
O clipe marca também uma consolidação da linguagem visual da banda. Molho Negro não apenas faz música; constrói universos. Cada material audiovisual dialoga com os anteriores, criando uma experiência coesa que reforça mensagens e reflexões presentes nas letras.
Crítica que importa
Em um momento onde praticamente toda banda é incentivada a virar “máquina de conteúdo” pelas próprias plataformas, a Molho Negro opta por usar essas ferramentas para criticá-las. É uma postura rara e necessária. O clipe de “VIDAMORTECONTEÚDO” não ignora a ironia de sua própria existência—é conteúdo sobre o problema do conteúdo, compartilhado nas mesmas redes que critica.
Essa contradição não enfraquece a mensagem. Ao contrário, reforça-a. A Molho Negro não oferece solução fácil ou fuga utópica; apenas documenta, com precisão visual e lírica, o caos em que vivemos diariamente quando colocamos nossos celulares na mão.
Fonte: Tenho Mais Discos Que Amigos