Paul McCartney não guarda mais silêncio sobre um dos períodos mais turbulentos de sua vida. Aos 82 anos, durante conversa com o diretor Judd Apatow após exibição do documentário Man on the Run em Los Angeles, o ex-Beatle abriu o jogo sobre como enfrentou o fim da banda em 1970 — e a comparação que faz é tão crua quanto reveladora.
A demissão que nunca pediu
McCartney comparou o término dos Beatles à sensação de perder seu único emprego. “O que você faz depois dos Beatles? Os Beatles acabam, esse foi o único trabalho que você já teve e, então, você não o tem mais. É como se você tivesse sido demitido”, disse durante a conversa divulgada pela Variety.
A ruptura não foi apenas profissional. McCartney contou que se mudou para a Escócia e mergulhou numa rotina autodestrutiva para lidar com a nova realidade. “Foi como uma espécie de colapso mental. Comecei a beber. Estava sozinho na Escócia, com uma pequena família recém-formada. Ninguém ia me repreender por beber demais”, recordou, antes de acrescentar: “Foi muito divertido até deixar de ser”.
O isolamento geográfico combinado com a perda de identidade profissional criou uma tempestade perfeita. “Acho que estar sozinho foi muito assustador, porque eu sempre tive a união do grupo. Então precisei descobrir como faria aquilo e como tornaria tudo diferente”, explicou.
Linda e os filhos como tábua de salvação
Foi a família que o trouxe de volta. Linda McCartney, sua esposa, e os filhos tiveram papel decisivo para que o músico mudasse de comportamento e encontrasse um novo propósito. Essa transformação resultaria na criação do Wings em 1971, nascido justamente dessa tentativa de reinvenção profissional.
A banda surgiu após McCartney assistir a uma apresentação de Johnny Cash na televisão e se inspirar na formação do cantor country. Ele convidou Linda para começar o grupo ao seu lado, e ela aceitou mesmo sem formação musical. “Nós aprendemos juntos. Essa era a grande coisa: subimos os degraus juntos”, afirmou o ex-Beatle, lembrando ainda das críticas que ambos receberam pela decisão.
Rejeitando o copiar-cola dos Beatles
Num primeiro momento, McCartney cogitou simplesmente criar músicas semelhantes às dos Beatles e reunir outros músicos para reproduzir aquela sonoridade. A ideia foi descartada. Ele resistiu até mesmo aos pedidos para incluir sucessos do quarteto em seus shows — produtores insistiam para que cantasse ao menos “Yesterday”, mas recebia negativas constantes.
Só após consolidar sua nova fase, especialmente com o sucesso de Band on the Run em 1973, McCartney voltaria a incorporar canções dos Beatles ao repertório. A mudança de postura também refletiu uma compreensão importante: ele não conseguiria reproduzir no Wings a mesma dinâmica coletiva dos Beatles.
De membro comum a líder forçado
Embora inicialmente quisesse ser apenas mais um integrante do Wings, McCartney descobriu que precisava assumir a liderança criativa. “Eu queria simplesmente ser um cara igual aos outros, mas isso não funcionou. Eu era um Beatle, e eles não eram. Então, sim, eu precisava ser o chefe”, disse durante a conversa com Apatow e o cineasta Morgan Neville, responsável pela produção de Man on the Run.
O documentário revisita justamente o período entre 1970 e 1980, acompanhando a trajetória de McCartney desde o fim dos Beatles até seus primeiros anos de Wings, utilizando imagens de arquivo e depoimentos em voz — uma escolha que o próprio cantor elogiou durante o evento em Los Angeles.
O relato de McCartney oferece uma perspectiva rara sobre como um dos maiores músicos do século XX lidou com o fracasso pessoal, o isolamento e a necessidade de reinvenção. Não foi glamouroso, não foi fácil, mas foi real — e foi justamente essa autenticidade na dor que moldou tudo o que veio depois.