Daniel Andrade, aos 51 anos, é um daqueles casos que resumem bem as dificuldades enfrentadas por atores brasileiros nas últimas décadas. Conhecido nacionalmente por viver Miguel, o personagem mascarado de Chiquititas (SBT, 2013), o ator acumulou papéis em produções de peso — passou por Esmeralda, Prova de Amor, Rei Davi e ainda atuou em trabalhos pela Globo como A Regra do Jogo e A Dona do Pedaço. Mas quando os contratos fixos com a televisão secaram, ele precisou se reinventar.
Do desespero à descoberta do design
A transição para uma segunda profissão não foi escolha, foi necessidade. Após perder sua estabilidade na TV, Daniel Andrade investiu em design de interiores e chegou a montar um escritório no Rio de Janeiro. Em entrevista ao site Notícias da TV, o ator foi direto: “Falei: ‘Cara, o que vou fazer da minha vida?’. Preciso fazer algo que eu goste e que me dê um sustento”.
A pandemia de Covid-19 consolidou essa mudança. Com a paralisação das produções audiovisuais, o trabalho como ator praticamente evaporou — mas o design continuou. “Nesta pandemia, o lado ator deu uma parada. Se eu não tivesse esse lado de designer de interiores, estava frito”, confessou ele. No início da crise, as pessoas estavam receosas e os projetos diminuíram, mas depois normalizaram. “O que segurou as pontas na pandemia foi o lado designer de interiores. O ator deu uma sumida”, resumiu.
A atuação nunca foi completamente abandonada
O importante é que Daniel não deixou a atuação morrer. Em 2021, ele voltou com força ao integrar o elenco de Verdades Secretas 2, produção do Globoplay, onde interpretou Lúcio, um médico de personalidade controversa. Foi uma oportunidade que reforçou sua presença no mercado audiovisual, mesmo que de forma mais espaçada que nos anos anteriores.
Em entrevista ao portal Observatório do Cinema, o ator deixou clara sua filosofia de trabalho: “Aqui no Brasil tem uma mania péssima de as pessoas acharem que só se pode ser uma coisa. As pessoas nascem com dons e temos que explorar eles. Quanto mais conhecimento você adquire na vida, melhor para você. Não larguei o lado ator para ser outra coisa. Sempre fui levando os dois e levo até hoje”.
Uma carreira que começou nos anos 1990
Segundo o Caras Brasil, Daniel Andrade estreou na TV em Brida, pela extinta TV Manchete, em 1998. Formado em Comunicação Social com estudos em interpretação, ele construiu uma trajetória sólida nas décadas seguintes, transitando entre diferentes emissoras. Seu papel mais memorável, porém, foi mesmo o de Miguel em Chiquititas — aquele personagem que usava máscara para esconder as cicatrizes de um acidente e mantinha uma relação intensa com Mili, vivida por Giovanna Grigio.
A história de Daniel reflete um fenômeno comum no mercado de entretenimento brasileiro: a dificuldade de manter uma carreira consistente apenas na atuação. Muitos atores, diretores e produtores precisam diversificar suas fontes de renda. No caso dele, a escolha foi design de interiores — uma área que, além de gerar receita, ofereceu flexibilidade durante a crise sanitária quando a indústria audiovisual praticamente parou.
O ator hoje segue conciliando as duas profissões, provando que é possível explorar múltiplos talentos sem necessariamente abandonar aquilo que te fez conhecido. Uma lição valiosa num cenário onde a palavra-chave não é especialização excessiva, mas adaptação inteligente.