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Lizzo desaparece das paradas: entenda o colapso de vendas do álbum ‘Bitch’

diegososua
25 de jun de 2026
5 min de leitura

Lizzo não está mais nas paradas. O novo álbum Bitch, lançado em 5 de junho pela Atlantic Records, vendeu apenas 2.649 cópias na primeira semana e conseguiu o feito de escapar completamente do ranking da Billboard 200. Para uma artista que em 2022 debutou em segundo lugar com Special (39 mil cópias vendidas), a queda é brutal.

Os números falam por si: na segunda semana, as vendas caíram para 650 unidades, enquanto os streams recuaram para pouco menos de 900 mil, segundo dados da Luminate. É um contraste gritante com um mercado que deveria estar ansioso pelo retorno da cantora após quatro anos de ausência. Segundo reportagem da Rolling Stone Brasil, executivos da indústria musical têm tentado desvendar por que um retorno tão aguardado virou um tropeço tão espetacular.

O problema não é o tempo de espera

À primeira vista, poderia parecer que quatro anos longe dos holofotes explicaria tudo. Mas nem isso. Um ex-executivo sênior de gravadora que conversou com a publicação foi direto ao ponto: “Acho que o maior motivo é que ela nunca teve uma base de fãs central, de verdade”. Segundo ele, Lizzo era “muito movida a músicas e hits de rádio, que não tinha um núcleo de fãs — e é isso que você precisa hoje para ter longevidade”.

A própria cantora reconheceu esse fator. No começo do mês, ela atribuiu a limitação do público às mudanças na forma como a música é consumida. “A indústria mudou tanto nos últimos três anos. O streaming substituiu o rádio e eu era queridinha do rádio”, escreveu Lizzo no X. “Foi assim que meus fãs descobriram minha música”.

Seu hit mais recente no Hot 100, “Special” (com SZA), ficou dez semanas na parada em 2023, mas chegou apenas ao 52º lugar — enquanto alcançava o 19º no ranking Radio Songs e o 15º no Pop Airplay. Era clara a dependência do rádio para sua visibilidade.

A questão do engajamento estratégico

O comentarista da indústria Ray Daniels não compra a explicação sobre mudanças no mercado. “Eu falo como empresário: para mim isso é tudo papo furado”, disparou à Rolling Stone. “Se você sabe que a indústria está mudando, deveria estar avisando seus fãs com antecedência. Por que você não está dizendo para eles pedirem sua música no rádio? Eles são seus fãs, vão fazer o que você pedir.”

É uma questão válida: por que não mobilizar o fã-clube existente para compensar as mudanças estruturais do mercado?

A fratura com o público

Mas existe um problema muito maior do que algoritmos de streaming: a confiança entre Lizzo e seu público se rachava profundamente. No mesmo post onde falava sobre mudanças da indústria, ela também mencionou “o ataque muito óbvio e público à minha carreira”, que virou um peso enorme na opinião pública.

Em 2023, ex-dançarinas de apoio acusaram Lizzo de assédio sexual, de criar um ambiente de trabalho hostil e de gordofobia em um processo que ainda segue sem resolução. No mês passado, durante uma conversa com Gayle King no CBS Mornings, Lizzo afirmou que prefere se preparar para o julgamento a aceitar um acordo fácil. “Eu não tenho medo da verdade”, acrescentou.

O impacto dessa crise na percepção pública foi demolidor. O ex-executivo foi severo: “Uma parte grande da marca dela era ser a azarona e muito autoconfiante, ‘eu sou quem eu sou’, eu apoio todo mundo, positividade corporal. E quando você é cobrada pelo mau tratamento exatamente daquilo que você dizia ser, entre aspas, a sua ‘marca’, aí os fãs não querem mais ver você vencer e vão embora.”

O experimento musical que não funcionou

Nos três anos entre Special (2022) e Bitch, Lizzo começou a se reinventar. Lançou a mixtape My Face Hurts From Smiling (2025) com produção de Ricky Reed e Zaytoven, marcando uma volta ao rap — terreno que ela havia explorado no álbum de estreia Lizzobangers (2013), mas que a maioria do público não conhecia.

Nessa mixtape, Lizzo abria o jogo: “Essa mixtape é tipo: ‘Eu vou falar logo. Eu não tô nem aí. Beleza’: ‘Eu já fui gorda e já fui magra/As vadias ainda não me dão moral'”. Ela mesma reconheceu que jamais colocaria algo assim em “About Damn Time” ou “Juice”.

Mas Bitch seguiu um caminho diferente. Feito em paralelo à mixtape, o álbum pende mais para pop e R&B, com letras que, segundo executivos, podem ter sido “amenizadas” para ficarem mais palatáveis. Outro veterano da indústria foi direto: “Musicalmente, eu não sei o que ela tem feito. Eu presumo que ela não esteja fazendo os discos como antes — aqueles que ressoavam do mesmo jeito — porque eram muito contagiosos e ‘formatados’, um pop meio doo-wop, com aquela linguagem debochada de meme.”

A ironia é cristalina: Lizzo tentou se reposicionar, mas pareceu perder sua identidade musical no processo. Seus maiores sucessos funcionavam justamente porque tinham essa mistura única de funk, hip-hop, sopros e autoconfiança destemida. Bitch, segundo a própria Rolling Stone, está “cheio de movimentos cansados e apelos cínicos”.

O que vem por aí

Não dá para negar que Lizzo é uma artista singular. Depois de estourar em 2019, ela emplacou uma sequência impressionante de sucessos. Mas singularidade não basta quando há uma desconexão tão profunda entre o que você representa publicamente e o que você faz na prática. E quando a indústria mudou, mas você não estudou as mudanças ou perdeu sua audiência central no processo.

O retorno de Lizzo não foi como esperado. Agora, ela enfrenta a tarefa mais difícil: tentar recuperar fãs que não apenas se afastaram, mas desconfiaram dela.

Fonte: Rolling Stone Brasil

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