A polêmica envolvendo Edu Falaschi ganhou novos contornos com as denúncias do guitarrista Roberto Barros. Após oito anos de parceria, o músico decidiu expor publicamente problemas que enfrentou durante sua permanência no projeto do cantor, incluindo questões sobre créditos autorais, cachês inadequados e despesas de turnê custeadas do próprio bolso.
O estopim: créditos e composição de “The Ancestry”
O conflito veio à tona quando Edu Falaschi concedeu entrevista à Rolling Stone Brasil, em junho do ano passado, explicando seu processo composicional. O cantor revelou ter criado a introdução de “The Ancestry”, faixa do álbum “Vera Cruz” (2021), usando uma técnica peculiar: cantar ideias no próprio celular e depois reproduzir sounds instrumentais com a voz.
“Quando eu compus a ‘The Ancestry’, que é uma música super virtuosa… nunca vou conseguir tocar aquilo lá, né? Mas eu componho assim, na boca, depois eu vou pro computador, programo tudo e peço pro guitarrista fazer o arranjo dele e me ajudar”, afirmou Falaschi na ocasião.
O assunto ressurgiu em um evento de pré-visualização do álbum “Mi’raj” (lançado em 12 de junho de 2026) em São Paulo, onde Falaschi novamente reproduziu a gravação caseira de sua composição. Desta vez, Roberto Barros não se calou. Através de uma série de vídeos nos Stories do Instagram, o guitarrista contestou a narrativa e denunciou problemas que se estenderam por toda sua passagem no projeto.
“Vera Cruz”: cachês impossíveis e apenas 3 créditos
A colaboração em “Vera Cruz” foi marcada por frustrações desde o início. Segundo Roberto, ele custeou todas as despesas das sessões de gravação — que duraram um ano e meio, com cerca de vinte dias mensais trabalhando dez horas diárias. Passagens aéreas, alimentação: tudo saiu de seu bolso.
O estrago maior veio no final de 2020. Em um e-mail com a lista de créditos do álbum, todas as faixas apresentavam apenas o nome de Edu Falaschi. Roberto viu seus meses de trabalho intensivo reduzidos a zero reconhecimento oficial. Aquiles Priester, ex-baterista do Angra que também participou do disco, acionou Falaschi após uma conversa com o guitarrista, gerando um desentendimento de dois dias entre os dois.
“Lembro do Aquiles me ligar horas depois e perguntar… Falei que compus todas, com exceção das duas baladas e da introdução. Aquiles ligou para o Edu e eles ficaram dois dias brigando por causa disso”, relembrou Roberto. O resultado foi um acordo mínimo: apenas três créditos autorais oferecidos após a intervenção de Priester.
Composições inteiras reivindicadas
Roberto aponta que contribuiu na criação completa de várias faixas do álbum. Em “Mirror of Delusion”, sua participação foi além da introdução e primeiro refrão. Em “Crosses”, afirma ter trabalhado tanto em harmonia quanto em arranjos, apesar de receber apenas crédito pela introdução.
O caso mais emblemático envolve “Face of the Storm”, que conta com vocais de Max Cavalera. Segundo o guitarrista, Falaschi prometeu dar-lhe 5% da composição, mesmo sabendo que ele havia composto “praticamente tudo”, deixando apenas o refrão e a introdução com tambores para o cantor. Max Cavalera recebeu 10%, deixando claro o desequilíbrio na distribuição.
“Ouvi muitas histórias do Edu falando de problemas que teve com créditos no Angra e no Almah. Eu me sentia: não quero ser esse cara, não vou falar nada, quero ficar na banda. Eu tinha medo. Vai que isso batia um gatilho nele e ele me tirava?”, explicou Roberto sobre seu silêncio inicial.
“Eldorado”: documentação como proteção
A situação se repetiu durante “Eldorado” (2023), mas desta vez com uma diferença crucial: Roberto passou a documentar seu processo criativo. Sempre que compunha algo, subia para o quarto e registrava tudo, garantindo assim comprovação formal de sua autoria.
O resultado foi um número substancialmente maior de créditos — seis no total, distribuídos entre 25% e 30% em diferentes faixas. A diferença de tratamento entre os dois álbuns evidencia como a falta de documentação prejudicou Roberto em “Vera Cruz”.
Cachês irrisórios e despesas do próprio bolso
Além do problema de créditos, Roberto enfrentou outra realidade amarga nos palcos. Os cachês oferecidos eram tão baixos que não cobriam sequer as despesas de deslocamento. Durante turnês, particularmente na Europa em 2018, o guitarrista precisava arcar do próprio bolso com transporte e outras despesas, mesmo tendo realizado um show esgotado no Carioca Club, no Rio de Janeiro, no início do projeto.
“A primeira vez que quis sair da banda foi em 2018. Estávamos na Europa. Aconteceu uma situação extremamente chata”, relatou, indicando que problemas com hospedagem e condições de turnê também pesaram em sua decisão de deixar o projeto antes do lançamento de “Mi’raj”.
O rompimento e o silêncio quebrado
Roberto permaneceu silencioso durante anos, acreditando que sairia da banda “na maior paz” e levaria essas histórias para o túmulo. Porém, quando viu Falaschi reivindicar composições que considera suas e ainda negar seu trabalho, decidiu quebrar o silêncio: “a partir do momento em que a pessoa quer arrancar de mim a única coisa que tenho, que é as pessoas saberem que eu fiz aquilo, e ainda dizer que foi ele quem fez aí está de brincadeira. Não vou ficar mais quieto”.
O guitarrista saiu do projeto antes do lançamento de “Mi’raj”, que encerra a trilogia conceitual iniciada com “Vera Cruz” e continuada em “Eldorado”. Suas acusações levantam questões importantes sobre reconhecimento autoral e condições de trabalho em projetos musicais de destaque no cenário do rock nacional.
Fonte: Igor Miranda