Um dos solos de guitarra mais célebres da história do rock guarda um segredo que desafia a própria lógica: seu criador nunca aprendeu a tocá-lo como foi imortalizado em disco. David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd, fez essa revelação surpreendente em entrevista ao produtor e youtuber Rick Beato, publicada pela Rolling Stone Brasil.
O mistério do segundo solo
A confissão de Gilmour diz respeito ao antológico segundo solo de “Comfortably Numb”, faixa de abertura do lado B do álbum The Wall (1979). Considerado por muitos como o melhor solo do rock, aquele trecho de quase três minutos tornou-se praticamente sinônimo da própria genialidade do Pink Floyd.
Mas quando sobe ao palco, Gilmour não tenta replicar a gravação. Ele improvisa, busca algo novo a cada apresentação, e justifica sua abordagem com uma tranquilidade que desconforta até mesmo os fãs mais devotos: “Para ser sincero, não estou pensando no público nem no que eles querem. Eu simplesmente gosto da maneira como tudo começa, e o restante está tão enraizado em mim que as diversas partes acabarão surgindo naturalmente no que estou fazendo. Mas eu nunca aprendi a tocá-lo”.
A resposta do guitarrista é ainda mais provocadora quando ele reconhece que outros músicos conseguem tocar a sequência original: “Quero dizer, há muitos caras que conseguem tocar isso. Mas eu não toco. Para mim, é simplesmente diferente a cada vez. Por que eu iria querer fazer igual?”.
A anatomia de uma colagem única
A impossibilidade de Gilmour replicar seu próprio trabalho tem explicação técnica. Bob Ezrin, produtor de The Wall, revelou que os dois solos de “Comfortably Numb” foram gravados em momentos distintos e com engenheiros diferentes. Enquanto o primeiro solo possui uma estrutura mais planejada e deliberada, o segundo — aquele que Gilmour admite não dominar — foi resultado de uma espécie de montagem em estúdio.
“O solo no final da música foi gravado quando Roger (Waters) e eu estávamos em um estúdio diferente, e David (Gilmour) o gravou com James Guthrie”, explicou Ezrin. Essa configuração única de gravação, com profissionais distintos e ambientes separados, criou uma versão final que transcendeu a capacidade do próprio Gilmour de reproduzi-la integralmente.
Criatividade acima da replicação
A postura de Gilmour não é contraditória nem negligente — é, na verdade, uma declaração de princípio sobre como ele concebe o ato de fazer música. Ao invés de ficar preso à reprodução exata de uma gravação de estúdio, ele prefere permitir que a performance respire, que mude, que exista como algo vivo e presente.
Essa filosofia explica por que os fãs raramente ouvem exatamente a mesma performance duas vezes. Não é falta de habilidade ou comprometimento — é uma escolha consciente de um músico que, aos 80 anos (e com uma carreira que atravessa mais de cinco décadas), já superou a necessidade de validar seu próprio trabalho replicando-o à perfeição.
O que pode parecer uma insuficiência revela-se, então, como coerência: Gilmour nunca foi do tipo que se importava em ser uma jukebox tocando suas próprias canções. E, ironicamente, é justamente essa atitude que tornou seus solos tão memoráveis.